MÉDICO GENÉRICO

08/04/2011 às 7:44 pm | Publicado em Diversos | Deixe um comentário

– Olá D. Gertrudes! Sente-se, por favor.
– O Senhor viu, doutor? O Conselho Federal de Medicina disse que os médicos não podem mais determinar a marca das próteses que implantam, só as especificações.
– Vi, sim, D. Gertrudes. Devemos dizer o modelo, o material de que é feita, as características técnicas, mas não podemos sugerir uma marca.
– Até que enfim, não é, doutor… Ouvi dizer que havia médicos recebendo dinheiro, por fora, dos fabricantes, para indicar uma marca de prótese.
Que absurdo!
– É, D. Gertrudes, os médicos não devem fazer isso, não é?
– É, não devem. Ninguém deve fazer isso…
– Bem, aí é mais difícil afirmar, D. Gertrudes. Mecânicos de automóveis obtêm lucro nas peças que trocam, arquitetos têm percentagem sobre os acabamentos que indicam, gerentes de banco têm porcentagem sobre o seguro que vendem, maitres de restaurantes têm dez por cento sobre os vinhos que recomendam, vendedores de todos os ramos têm comissão sobre o que sugerem que compremos. Na verdade, a maioria das pessoas que lhe sugerem algo, neste mundo, está¡ ganhando alguma coisa. Mas os médicos, definitivamente não devem fazer isso.
– Por que será¡ que alguns fazem?
– Não sei… Mas posso imaginar. Talvez tenham se cansado de ver os planos de saúde pagando 20.000 reais por uma prótese, e só 400 para o médico que a implanta.
– Mas isso não justifica, doutor. Afinal, os fabricantes de prótese são empresários, e os médicos são profissionais dedicados exclusivamente à saúde de seus pacientes.
– É, não justifica, D. Gertrudes. De fato, não. Mas é preciso separar as coisas: uma coisa é indicar uma marca porque ela paga percentagem, outra é o médico indicar porque acha que aquela marca é a melhor para seu paciente, sem receber nada por isso.
– Sabe, doutor, eu sempre detestei esse negócio de marca. É pagar por uma etiqueta…
– Bem, D. Gertrudes, marcas existem desde os primórdios da humanidade.
Desde o primeiro ser humano que comprou ovos numa feira, existiu o fator confiança no vendedor. Marcas são, basicamente, uma relação de confiança. Escolhemos marcas em eletrodomésticos, em automóveis, em empresas de telefonia, em roupas, em quase tudo. Porque a marca pressupõe uma história, e serve como um indicio de que aquilo que estamos comprando foi feito por alguém, ou por uma empresa, que construiu seu nome ao longo de muito tempo, com bons serviços prestados. Claro que isso não é absoluto, pode-se comprar uma porcaria de uma marca conhecida, mas isso faz deteriorar a marca com o tempo. De qualquer forma, o conceito de marca está presente nas relações comerciais desde que a civilização começou.
– Pois eu não uso esse conceito. Quando vou à feira, escolho as bananas que me parecem melhores. Se não estiverem boas, na próxima vez compro de outro. Não me interessa a marca.
– Claro que sim. Mas a senhora compra bananas todas as semanas, e consegue distinguí -las pelo aspecto. Entretanto, só comprará¡ uma prótese implantável uma ou poucas vezes na vida. Como vai ter experiência para distinguí-las, ainda mais considerando que não entende nada disso?
– Vou confiar no meu médico. Ele deve implantar essas próteses com freuência, e deve saber qual é a melhor…
– Sim. Mas ele também usa a marca como guia para essa escolha. Afinal, ele trabalha com coisas que não podem falhar. Ninguém salta de paraquedas sem saber quem o fabricou, quem dobrou, não é? O paraquedas pode estar lindo e branquinho, mas é bom saber quantos, daquela mesma marca, já deixaram de abrir alguma vez.
– É, doutor. Mas, assim mesmo, acho que os médicos deveriam esquecer para sempre esse negócio de marcas. Deveriam se ater às características básicas do produto, dados técnicos apenas.
– Isso nunca vai ser possível, D. Gertrudes.
– Por quê?
– Porque o médico, em si, também é uma marca.
– Como assim?
– Quando a senhora precisa escolher um médico, se informa sobre ele.
Procura saber de pessoas que já tenham sido tratadas por ele, pergunta a outros médicos sobre a reputação profissional, investiga sobre a experiência pregressa que ele tem no assunto, etc. O próprio nome do médico é, em última análise, uma marca.
– Isso é verdade. Mas, doutor, nós sempre poderemos escolher os nossos médicos, não é?
– Não. Do jeito que as coisas vão, a senhora deverá¡, em breve, especificar apenas os dados técnicos do médico que quer. Por exemplo: oftalmologista, que tenha consultório na zona sul, que atenda no período da manhã, que não
atrase mais que 20 minutos e com mais de 5 anos de prática. O plano de saúde é quem dirá o nome do médico a quem a senhora deve confiar sua saúde. O nome não pode ser escolhido, porque é, em última instância, uma escolha de marca.
– Nossa, eu não gosto disso!
– Vá se acostumando. Será a época do médico genérico.

(texto recebido pela internet sem citação de autoria)

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